O pão nosso de cada dia

Você já pensou na importância do pão na nossa alimentação? Se ele aparece como o simbolismo do alimento da oração mais sagrada das religiões cristãs e existem menções bíblicas ao pão ainda mais remotas, por que hoje temos que demonizá-lo como sendo o responsável por todos os nossos males?

O pão de cada dia deveria ser pensado como a fonte de carboidrato que nos dá energia para a vida. A diferença é que pão é feito de trigo transformado em farinha, adicionando-se fermento que nada mais é do que um fungo, água e sal. Pão assim é de verdade, carboidrato complexo que nutre e sustenta e tem muito pouca chance de desencadear processos de descompasso na nossa fisiologia. A heresia está em chamar de pão aquilo que se compra no supermercado ou nas padarias industriais. 


A heresia está em chamar de pão aquilo que se compra
no supermercado ou nas padarias industriais.


Seja qual for a fórmula pela qual você opte, adicionada, fortificada, zero-isso, sem glúten, zero-aquilo, com todos os grãos, com sementes, isso não é pão! Nunca foi e nem será! Pãozinho branco de padaria há muitas décadas deixou de ser pão. O gosto mudou, a textura se perdeu, apenas o aroma se tornou similar pela adição de aromatizantes e o craquelado da crosta, que agora esfarela ao invés de partir, fazem o mesmo som. Não se iluda, não se permita entrar nessa arapuca de levar uma coisa por outra. 

Há muitos anos sou fã das padarias artesanais, aquelas do bairro do Bixiga, que fazem o verdadeiro pão italiano a partir da receita tradicional de pão. O sabor no final da mordida tem um azedinho incomparável, e aí você sabe que está sendo presenteada com uma iguaria. A crosta é espessa, mas não dura, apenas firme e crocante. Dourada no ponto certo e o interior delicioso, com um ligeiro toque cinza off-white, nada da alvura química. O interior é macio, mas tem consistência. Você come e se sacia. Ele absorve magicamente azeite, manteiga, molhos e gemas de ovos moles. Combina com tudo e mata a fome. 

O tempo é curto da sobrevida dessa preciosidade. Feito para ser consumido logo, mofa após poucos dias, com a tranquilidade de ter cumprido seu propósito existencial. Mata a fome de quem o saboreia, e faz isso entregando o seu melhor. Padarias artesanais começam a fazer número pela cidade, e eu, que há algum tempo não tenho conseguido ir ao Bixiga para apreciar o pão delicioso, me animo. 

Hoje, consegui ter a mesma sensação de prazer comendo um pão de campanha de uma padaria “francesa” perto de casa. Absolutamente divina! Ousei na experimentação e encomendei também croissants. Confesso que não como croissants por aqui pois não consigo apreciar a quantidade exagerada de manteiga que só denota a falta da expertise lapidada pela prática incansável da técnica apurada. Mas hoje tive a maior das surpresas. Um croissant perfeito! Impecável! Para se comer rezando e pedindo que muitos mantenham este pequeno comércio vivo, sem torná-lo industrial. Que fique com o preciosismo. Precisamos de mais qualidade e não tanto de quantidade. 


Precisamos de mais qualidade e não tanto de quantidade.


Pão com farinha sem condicionadores forma uma liga com o fermento que deixa a massa crescer no ponto certo. Digerimos bem este conjunto e assim a humanidade vem se perpetuando por tantos anos, com energia e força para vencer tantos desafios. Saciamos a fome e nos nutrimos com esse pão. 

A fórmula química que se encontra em prateleiras já não tem a mesma aceitação pelo nosso corpo. Agride e nos transforma em indivíduos sem energia, sem vitalidade. Sua composição é cheia de condicionadores e estabilizantes. Estes cumprem tão bem seu papel de aumentar a durabilidade na prateleira que não deixam nem que nossos sucos digestivos acabem com o produto que os abriga. E isto agride nossas entranhas, nos deixa doentes. Faz com que nos rebelemos contra todas as comidas, nos tornando intolerantes, alérgicos, sem humor, famintos, desnutridos e obesos ao mesmo tempo. 

Não tire o pão da sua vida. Se precisar se recuperar de agressões sofridas pelo que anda comendo, se precisar perder peso, ou ainda melhorar de dores importantes, afaste-se de produtos industrializados e de comidas ultraprocessadas, cheias de farinhas refinadas e gorduras nocivas. Investigue à exaustão cada ingrediente do que não puder evitar de comprar processado. Volte-se para a comida de verdade. Quando perceber que começa a murchar dentro das roupas, digo murchar porque é isso que vai acontecer por perder toda a água retida pela inflamação do seu corpo, aí experimente comer pão de verdade. Apenas o suficiente para ver se ainda se lembra do gosto.


Você vai descobrir que a felicidade
também está num pedaço de pão.